O acidente


O acidente aconteceu no dia 30/5/2004 às 22h, me tiraram das ferragens aos 30min. do dia 31/5/2004.

Muitas vezes nos achamos indestrutíveis, creio que esse era meu caso… Já vinha trabalhando havia cinco semanas e isso incluía os finais de semana. Fui ao Triângulo Mineiro resolver alguns problemas e na volta estava muito cansado, mas mesmo assim evitei parar em Belo Horizonte para descansar, pois tinha que está no escritório no dia seguinte pela manhã. Tive um primeiro aviso: dei uma cochilada na direção e quando acordei já estava na contra mão. Creio que devia ter parado naquele momento, mas queria dirigir pelo menos até Congonhas. Como todos podem ver Congonhas jamais chegou muito menos o Rio de Janeiro.



O saldo? Fratura externa no úmero, hemorragia interna ( 2 litros de sangue), retirada do baço, nervo radial traumatizado (nos próximos meses voltaria a ter o movimento de levantar o pulso), duas costelas quebradas, cotovelo quebrado, um belo corte na retina, pontos na cabeça/joelho e hematomas pelo corpo inteiro.
No total passei por onze cirurgias. Aqui você vai saber como foram meus dias dentro e fora do hospital.
Espero que minha história sirva para alertar aqueles que acham que podem vencer o sono. Por sorte, eu fui o único ferido no acidente, mas poderia ter matado outras pessoas.



Vou contar uma coisa para vcs… Devia realmente ter parado quando dei a primeira cochilada na direção. O pior é que cheguei a parar em frente a um posto de gasolina para tirar um cochilo, mas achei que ia dar. Só me lembro de acordar com um barulho ensurdecedor, para em seguida desmaiar. Era o meu carro colidindo com a carreta da coca-cola.
Quando acordei novamente, a primeira imagem que me lembro é a de luzes por todos os cantos. Olhei para o meu braço esquerdo, braço? Que braço? Só existiam dois pedaços de osso apontados para fora, o que devia ser a carne em volta do cotovelo, simplesmente estava pendurada.


Diante desse quadro, ainda tonto… Percebi o que estava acontecendo… Minha vida estava mudando. Não sabia o meu exato estado, mas sabia que era grave. Havia sangue e pedaço de osso por cima de mim.

Um médico (Dr. Saulo) veio falar comigo:

- Vc está sentindo dor?
- Não… Só estou com frio e tremendo muito, mas creio que isso é normal, né?
- É…
Olhei novamente para o meu braço e comentei:
- Acho que esse aí não tem jeito.
Ele fez cara de desânimo e em seguida respondeu:
- Realmente tá feio, mas não pense nisso agora…
- Não tem problemas… Vivi 31 anos com os dois braços e posso viver o restante da vida sem um deles.
Ele fez cara de surpreso…

Ele me explicou que eu estava preso nas ferragens, que haviam chamado os bombeiros e que eles estavam vindo com equipamento especial para cortar aquele monte de aço retorcido… Aquilo que um dia havia sido um carro com um belo som, naquele momento não passava de lixo na estrada, com um quase cadáver espremido no meio. Ele se afastou e eu fiquei olhando as luzes que brilhavam.



Passaram-se alguns minutos, o sangue estava esfriando e a adrenalina baixando. A dor começava a vir de forma intensa. Tive que chamar novamente o Dr. Saulo:
- Ei… Por favor…
O Dr. Saulo se aproximou e eu falei:
- A dor já está ficando insuportável, será que vc poderia me dar algo para diminuí-la?
- Vou te dar um remédio para dormir.

Ele me aplicou uma injeção, passados alguns segundos eu apaguei. Seria o final da minha história no local do acidente.

Quando acordei estava no hospital João XXIII em Belo Horizonte, ficava o tempo todo dizendo: tenho plano de saúde… Tenho plano de saúde… Rs. Era o medo de ser atendido em hospital público, que ainda por cima estava em greve.

Paguei minha língua, pois fui muito bem atendido. A primeira coisa que fizeram foi fixar o meu braço direito. Na realidade me lembro de alguns “lances” dentro do hospital. Lembro da correria, depois dos médicos me levando para o bloco cirúrgico, depois de sair dele com o braço, já com o fixador e reclamar de vidros dentro do olho esquerdo, deles retirando o vidro e de eu constatando que só estava enxergando um clarão com minha vista esquerda. Depois desses acontecimentos as coisas começaram a ficar mais claras e as lembranças mais consistentes.



Tudo parecia estar bem… Já tinha feito a cirurgia no meu braço e mesmo não sabendo se ele seria amputado posteriormente, as coisas estavam relativamente sob controle. Continuava enxergando somente um borrão com o olho esquerdo, mas naquela ocasião isso na fazia diferença. Nos bastidores, minha mãe e Lu ficavam organizando tudo para eu ser transferido para um hospital particular. Já estava tudo certo para eu ir para o Socor, quando de repente comecei a sentir uma dor forte no abdome. Já era o segundo dia que estava no João XXIII, já tinha até tomado banho (totalmente dopado de dolantina). Quando essa dor surgiu, eu estava indo fazer um exame para ser transferido. De repente meu abdome começou a inchar e a respiração ficou alterada… Era uma hemorragia interna.



Os médicos conversaram comigo e falaram que fariam uma ressonância magnética, mas era quase certo de ser isso. Pensei: Meu Deus estou muito fraco, não vou agüentar mais uma cirurgia. Pedi para Lu que estava comigo, ligar para o meu pai. Ela perguntou o que eu queria falar com ele. Simplesmente falei: Liga, droga!

Quando ele atendeu, ela me passou o celular e eu disse a ele:

- Pai, estou com hemorragia interna, vou ter que operar de novo… Estou muito fraco e acho que não vou conseguir voltar dessa cirurgia. Promete que vai cuidar da minha mãe e da Lu pra mim? Meu pai ficou em silêncio do outro lado da linha. Estava chorando, assim como eu.

A Luciana tomou o celular de minhas mãos (era a única que estava segurando o choro) e falou com meu pai:

- Oi Sr. José Maria. Não liga pra ele não. Ta tudo bem. Ele só tá nervoso com essa nova cirurgia.
Juntei minhas forças e gritei novamente:
- Não estou nervoso, só faça o que pedi.

Quando voltei da cirurgia estava com pontos do peito até a virilha. Falarem que meu baço havia estourado e que eu tinha tido uma hemorragia interna de dois litros de sangue. Novamente voltei para o meu leito, eu e mais cinco pessoas dividíamos a mesma enfermaria, dois tinham levado tiro, um tinha sofrido acidente de moto, eu de carro e os outros não me lembro o que tinha acontecido.



Era hora de tentar uma nova transferência, dessa vez sem novas surpresas.Havia uma nova indicação de hospital, segundo o médico que retirou o meu baço, um tal de Mater Dei era melhor do que o Soccor. Imediatamente entraram em contato com o Mater Dei e marcaram minha transferência.

Após os trâmites normais, fui transferido para o novo hospital. Era o início de uma nova luta que ia se estender por 2004 entrando em 2005, era o início de minha recuperação. O primeiro ortopedista que me atendeu foi o Alessandro, uma pessoa muito legal. Quanto a mim, tinha dois caminhos pela frente: desanimar por causa das dores e risco de perder o braço (ainda existia), ou sorrir e acreditar que ia me recuperar rapidamente. Resolvi acreditar na segunda opção!

Ao chegar no Mater Dei, fiz novamente uma bateria de exames, e apesar do pessimismo do meu médico, deixei claro que já havia passado 31 anos (na época… Rs) com os dois braços, logo se fosse necessário, poderiam amputar meu braço esquerdo, pois se havia aceitado de bom grado, ser saudável, musculoso, etc, até aquele dia, também aceitaria de bom grado amputar o braço se assim fosse à vontade de Deus.

Como sempre acontecia na época, meu médico se mostrou surpreso com minhas palavras, acho que eles estão mais preparados para lamentos do que para pessoas que aceitam essas situações de bom grado.
Voltando ao hospital; Dr. Alessandro passou a bola para o Dr. Roberto, um especialista em fixador, como teria que conviver por um bom tempo com esse aparelho, ele era a pessoa mais indicada.  Confesso que não tive uma boa impressão do Dr. Roberto de cara e pedi para minha mãe e Lu me transferirem para o Rio, mas elas foram atrás do médico e pediram para ele conversar comigo de novo. Foi o melhor, pois acabamos nos tornando bons amigos.

Dr. Roberto era uma comédia… Para ele nada doía. Como eu tb era chato e metido a machão (Rs) fazia de conta que não estava nem ai para dor. Quinze dias após ser transferido para o MD fiz a primeira cirurgia. Retirei aquele fixador que tinham colocado no braço no João XXIII e colocaram um modelo mais adequado e posicionaram o osso um de frente pro outro, pois no outro hospital a preocupação era simplesmente fixar o osso para poder cuidar das demais lesões. A cirurgia demorou mais de 6h, alias como todas que fiz, mas o importante é que sai bem da cirurgia e feliz como sempre procurava ser.



Aquilo que devia ser motivo para tristeza havia se tornado uma grande alegria. Fiquei no quinto andar o pior do hospital, pois era o único que tinha vaga, mas posteriormente depois pude confirmar que foi o melhor, pois as pessoas eram muito humanas. Fiz ótimas amizades com enfermeiros, médicos, faxineiros, aux. de enfermagem, pessoal da copa, demais pacientes, etc.

Passava os dias visitando os outros pacientes que estavam desanimados, e todos os dias fazia festivais no meu quarto (pastel, pizza, sorvete). Nessa época, minha mãe e Lu ainda estavam por lá dando uma força. Elas foram duas guerreiras que dormiram em cadeiras ao lado de minha cama por noites incontáveis.

Quinze dias após colocar o fixador no MD, o Dr. Roberto falou que tinha uma opção mais cômoda: retirar o fixador e colocar uma haste por dentro do osso. Nesse processo, iria aproveitar e retirar osso da bacia para colocar em volta do meu osso fraturado e com isso acelerar a recuperação.

1. 30 dias após o acidente continuava sem os movimentos de mexer o punho pra cima e das pontas dos dedos devido à lesão no nervo radial (até então sabíamos que meu nervo havia ficado pendurado, mas não tinha arrebentado o que acenava com a possibilidade de recuperação do mesmo).

2. Meu olho esquerdo que sofreu um corte foi recuperando a visão aos poucos. A cegueira inicial se transformou em 5 graus de astigmatismo e 3,5 de hipermetropia. Um milagre segundo os médicos. Além disso, minha pupila congelou dilatada. Isso me obriga a usar óculos escuro até hoje, pois enxergo em torno de 5X mais claridade com esse olho do que uma pessoa normal. Até gostei… Assim tenho motivo para sempre estar de óculos escuro.
Minha pressão ocular estava muito alta no olho esquerdo e estava sendo controlada através de remédios, mas após uma cirurgia ela voltou ao normal e não necessito mais de colírios. Milagrosamente (e digo milagrosamente porque os médicos não sabem explicar o pq) minha vista foi recuperando a visão aos poucos e no último exame tinha 1,25 de astigmatismo e 0,75 de hipermetropia (dois meses atrás mais ou menos).

3. Os pontos da cirurgia devido à hemorragia interna foram retirados 10 dias após a mesma e fiquei com um risco que vai do peito até a parte inferior do abdômen. Mas fora isso está tudo bem.

4. Minhas costelas quebradas e demais escoriações foram se recuperando aos poucos. As costelas incomodavam um pouco quando tossia, mas nada que não desse para agüentar.

5. Meu cotovelo quebrado, que só descobriram um mês após o acidente, por acaso, quando fizeram um raio-x do úmero, calcificou aos poucos, mas nunca chegou a incomodar durante a recuperação.

Com essa conclusão sobre os demais casos, vou me fixar na fratura do úmero esquerdo e no movimento da mão, pois foi minha cruz.