O acidente VI


Priscila (acadêmica de enfermagem) foi correndo a farmácia pegar o material de sutura e eu logicamente fiquei rindo a toa.
Assim que ela voltou, limpamos bem o local.
Dr Roberto colocou as luvas estéreis, passou a linha na agulha, olhou para mim e começou a dar os pontos. Um a um foi dando os pontos. Existia uma pequena dor a cada ponto, mas a satisfação de ver aquele acesso diminuindo de tamanho era maior que qualquer dor.

Não sou masoquista, nem metido a forte.
Na realidade existia uma explicação para a dor não ser tão forte naquele momento. Com a lesão do nervo havia perdido parte da sensibilidade do braço o que diminuía a sensação de tato.

Os dias foram passando e os bons indicadores foram se mantendo. Era hora de começar e pensar no passo seguinte,  hora de me despedir de todos.

Conversei com o Dr. Roberto e concordamos que o risco de nova infecção era maior devido a esta no hospital.
Dei uma de minhas fugidas e fui ao apart hotel onde havia ficado no ano anterior. Bingo! Havia apartamento disponivel.  Era só pedir alta e voltar à vida normal.
Tinha que ficar em BH até a ferida fechar por completo e todos os dias teria que ir ao hospital fazer curativo, mas como não tinha que tomar remédio para fazer o curativo, podia fazer no ambulatório sem maiores problemas.

Avisei aos amigos que estaria recebendo alta no dia seguinte.
Após promessas de sempre passar lá e jamais esquecer aquelas pessoas maravilhosas, fui para o meu quarto e comecei a arrumar as coisas.
Alguns entravam e falavam que não acreditavam que eu estava indo embora. Perguntavam porquê não ficava internado até o fim do tratamento, eu explicava que era melhor assim.
O risco de infecção era menor e também precisava voltar a andar sozinho. Estava mal acostumado, afinal, tinha comida nos horários certos e por mais que andasse dentro do hospital, eu havia me tornado preguiçoso… Rs.


Minutos antes de sair do hospital, tive uma última surpresa. Várias pessoas entraram no meu quarto, alguns rostos eram de velhos conhecidos. Pessoas que me acompanharam desde o inicio, bem como amigos que fiz em minhas internações mais recentes.

Entregaram-me uma caixa de bombom em nome de todos e agradeceram por tudo que fiz naquele período. Mais uma vez chorei de emoção e falei que eles é que tinham feito muito por mim e eu é que devia está presenteando a todos.

Após todos saírem do meu quarto, dei uma última olhada naquele que foi meu lar por algum tempo, peguei o carrinho com minhas bagagens e saí pela última vez de dentro daquele quarto.

Era o dia 23/3/2005, Um mês e um dia após me internar eu saia do hospital.



Era o final de mais uma fase e o início de outra.

O tratamento continuava, mas de fora do MD.



Continuei indo ao hospital todos os dias, depois passei a ir dia sim, dia não e posteriormente duas vezes por semana. Os curativos eram feitos no ambulatório e felizmente a dor era cada dia menor. Além disso, era muito bom ver a ferida fechando cada dia mais.
Como passava os dias com muito tempo livre, procurava me atualizar das coisas que aconteciam no Rio pela internet.
Era estranho ter que cuidar de minha alimentação. Realmente havia ficado mal acostumado com as facilidades do hospital.

Saí do hospital no dia 23/3/2005 no início de Maio, contrariando todos os médicos do MD (menos o Pedro que sempre acreditou em minhas loucuras) voltei a malhar na academia do apart onde morava mesmo com o fixador no braço. Os médicos falavam que eu era louco e que ia quebrar o fixador externo, ainda assim perseverei. Isso causou um efeito colateral… Meu osso passou a calcificar mais depressa e posteriormente o Dr. Roberto acabou falando que minha “loucura” havia me ajudado.

Conforme ia malhando os músculos iam respondendo e a base da haste superior do fixador começou a esbarrar no meu deltóide (ombro), isso causava certa dor e limitava os meus movimentos.

No dia 10/6/2005, comecei a perturbar o Dr. Roberto para retirar aquela haste superior, mas ele se recusava, pois dizia que ia perder 40% da sustentação e que eu ia querer aumentar o peso de novo nos exercícios.

Eu ficava rindo do que ele falava, pois ele estava certo.

Num dia cheguei ao hospital para fazer o curativo e perguntei ao Dr. Roberto:

-Como é que se retira a haste?

Ele respondeu: - Tem que afrouxar esse parafuso e depois pegar a furadeira e desenroscar do seu osso (a haste era enroscada no osso como um parafuso comum).

Perguntei: - Posso tirar com alicate?

Ele: - Isso tem que ser feito no bloco cirúrgico. Vc não agüentaria a dor.

Perguntei novamente: - Sim… Mas é possível tirar com um alicate?

Ele percebendo minha intenção falou: - Não mexe nisso… Semana que vem a gente tira isso. Prometo.

Respirei fundo e falei : – tudo bem.



A semana passou e na segunda feira da semana seguinte fui ao hospital já com um alicate em mãos (Rs).
A primeira coisa que falei ao ver o Dr. Roberto já mostrando que havia levado um alicate, foi:

- Já passou uma semana. Vamos tirar?

Ele tentou me enrolar dizendo que tinha que marcar horário no bloco. Na mesma hora o cortei e falei:
Ou você tira agora da forma correta eu vou para casa e retiro sozinho.
Ele falou: – Vc não vai agüentar a dor, isso tem que ser feito no bloco.

Eu falei: – Ora dr. Roberto, uma hastezinha… Fala sério.

Ele: – Ela esta parafusada no seu osso.

Eu: – Manda ver!

Ele: – Deixa eu te explicar uma coisa: O fixador tem a tensão dividida sobre essas seis hastes, se eu tirar uma que fica no meio, não tem problema, pois na realidade elas não estão exercendo força, mas se eu tirar essa superior, estarei sobrecarregando às outras.
Depois de um ano, agora que finalmente esta dando tudo certo, vc vai querer arriscar?

Respondi: – Justamente por isso! Por ser professor de educação física tenho uma visão diferente sobre essa situação:
Todo músculo não trabalhado sofre atrofia e com o passar dos anos temos perda de massa muscular que é substituída por tecido adiposo, justamente devido à falta de esforço. Ao retirar a haste vou fazer mais esforço na região e acelerar a calcificação.
Fala a verdade, pelo menos em teoria tem lógica…

Ele falou: – Só que se o osso mover um pouquinho que seja, voltamos à estaca zero.

Eu: – Não vai mover!



Ao ver que não tinha mais jeito e que realmente estava decidido, ele chamou Daniel, Rafael (Residentes) e a Elaine (enfermeira) para ajudarem.
Deitei na maca e ele afrouxou o parafuso que dava sustentação às hastes. Pegou o alicate e começou a desparafusa-la.
Devo admitir que a dor era muito forte e que contraía os músculos a cada volta que dava para desparafusar.
Com suor por todo corpo e um alivio fora do comum, sorri ao ver a haste saindo de dentro da carne. Era mais uma batalha que estava sendo vencida.
Sentia que após tantas batalhas, lentamente ia vencendo aquela guerra. Era só uma questão de tempo.

No dia 31/5/2005 comemorei com alguns amigos o meu “primeiro aniversário”. Estava fazendo um ano que havia sido retirado das ferragens.
Nunca me importei com o dia do meu aniversário, mas prometi a mim mesmo que sempre vou comemorar o dia 31. Após ficar duas horas e meio preso dentro das ferragens (o acidente foi por volta das 22h do dia 30), eu era retirado e ali começava uma nova vida.

A comemoração foi super legal.
Ao final da noite, meus amigos que tb eram meus médicos se despiram da profissão e ficaram apenas as pessoas sentadas a mesa.
Rimos, contamos piadas e confraternizamos. Todos estavam satisfeitos, afinal aquela vitória era deles também.

Após retirar a haste superior fiquei alguns dias quieto. Aos poucos fui recuperando a confiança e passado uma semana, lá estava eu malhando novamente.
Acho que o Dr. Roberto estava certo ao não querer retirar a danada… Rs.


 No final de Junho comecei a perturbar o Dr. Roberto para retirar o fixador, mas ele dizia que era melhor esperar mais dois meses.
Após tanto tempo, já começava a ficar excessivamente ansioso.
A bem da verdade, dois meses não era nada para alguém que já estava naquela a mais de um ano, mas vai convencer a alguém que está viajando o dia inteiro e que está perto do destino que o melhor é parar e esticar as pernas para espantar um pouco do cansaço. Vc logicamente vai querer acelerar o Maximo possível para chegar ao seu destino.
De tanto perturbar consegui fazer um novo raio-x. Com ele em mãos comecei a debater sobre a ponte óssea que já havia se formado em um dos lados da fratura.
Ele tinha medo que não estivesse totalmente consolidada, mas eu ficava insistindo que estava.

Dr. Roberto chamou os residentes e ortopedistas que estavam no pronto socorro naquele dia e ia perguntando o que achavam daquele raio-x. Alguns achavam que já estava calcificado enquanto outros diziam que não.
Com o impasse acabei apelando para o velho golpe do alicate… Rs.
Diante de minha insistência ele falou que tudo bem. Ia marcar o bloco cirúrgico para retirar o fixador, mas veio com a pergunta:
- E se não estiver calcificado?


Respondi: - Nesse caso vc vai provar que estou errado (comecei a rir).

Ele olhou para mim e falou que entendia minha situação, afinal, já fazia um ano e dois meses que eu estava naquela batalha.
Marcamos o bloco cirúrgico para terça-feira (26/7/2005).
Tentei argumentar para retirar tudo no PS (pronto socorro), mas ele não aceitou. Falou que devido aos protocolos do próprio hospital, isso era impossível.


No dia 26 estávamos reunidos no bloco cirúrgico. Como sempre o clima era de descontração, mas havia uma certa tensão no ar.
Tudo e todos preparados, fui sedado e comecei a sentir uma leve tonteira.
Dr. Roberto foi soltando os parafusos que sustentavam a haste e eu ainda falei rindo:

- Ou!!!! Perai… Perai… Perai… Já que vc me sedou, espera essa porcaria fazer efeito.

Ele sorriu e explicou que só estava soltando a base, mas que só ia desparafusar quando eu apagasse.
O mundo começou a girar cada vez mais rápido e passado alguns segundos eu apaguei.
Após quase uma hora acordei e olhei para o braço. Vi que estava sem o fixador.
Dr. Roberto olhou para mim sorrindo e disse:

- Só tem que tomar cuidado agora, pois a ponte só está consolidada de forma convincente de um dos lados. NADA DE EXERCÍCIOS NOS PRÓXIMOS TRÊS MESES, entendeu?
Fora isso… Deu tudo certo!

Era o final de uma novela que havia durado 14 meses. Nos dias que se seguiram continuei indo ao MD, mas o clima já era de despedida. No dia 31/7/2005 voltei para o Rio de janeiro deixando para trás amigos e toda uma história, afinal, foram 14 meses morando em BH.

No final de Setembro de 2005 fiz a primeira cirurgia plástica (o resultado vcs conferem nessa foto). O braço ainda é um monte de cicatrizes, mas querem saber… Eu não ligo.
Ia fazer uma nova plástica em dezembro do mesmo ano, mas decidi que não era mais necessário. Prefiro ficar com as cicatrizes. Elas não me deixam esquecer que tudo podia ter sido evitado se meus limites fossem respeitados.


O acidente trouxe uma série de mudanças em minha vida. Algumas boas, outra nem tanto.

Fazendo uma reflexão após cinco anos, vejo que devido a tudo que passei, devia ser um ser humano melhor. Infelizmente e sinceramente, acho que estou muito aquém do que devia ter me tornado.

Descobri que somos mais fortes do que imaginamos e que essa força sempre vai aparecer quando realmente for necessária.

Entre todas as coisas que vivi, descobri e sofri, o poder do sorriso foi o que mais me surpreendeu. Durante o período mais tenso no qual todos achavam que eu ia morrer nas ferragens ou perder um braço (risco que existiu durante boa parte de minha internação), via claramente que devido a eu sorrir nos momentos de dor e sofrimento, contagiava aqueles a minha volta, deixando o pessoal do resgate, médicos, enfermeiros e amigos, mais otimistas pelo simples fato de está sorrindo.

Creia que as coisas vão melhorar, mesmo nos momentos de desespero, sorria, pois tudo na vida passa.

Beijos e abraços.