O acidente V


Dia 5. Me despedi de todos do andar dando até logo e em seguida fui levado para o bloco cirúrgico. Ao chegar no bloco, tive que agüentar aquele frio infernal. Para piorar sempre temos que ficar sem roupas, somente com uma avental, o que aumenta ainda mais o frio.

Batemos um pouco de papo, fizemos algumas piadas, e após está tudo pronto, o Bebeto aplicou a anestesia. Passado uns trinta segundos ele perguntou se ainda não estava sentindo o efeito. Respondi que não. E completei:
- Acho que meu organismo já está acostumado com a anestesia.
Passados mais alguns segundos, comecei a ficar tonto e apaguei.

Como não sabiam em que parte do nervo era a lesão, tiveram que ir abrindo o braço aos poucos até chegar na parte lesionada.
Finalmente estavam vendo até que ponto meu nervo havia sido lesionado e se havia chance ou não de recuperação.

Qual foi o nível da lesão?
O que realmente aconteceu com o nervo?




Lesão localizada, alívio de todos.
Felizmente era só um pequeno corte no nervo radial.
Haviam dado um pequeno corte na parte externa do nervo, um corte mínimo, mas o suficiente para me privar dos movimentos dos dedos e de mexer o punho para cima por um longo tempo (Posteriormente conversei com o Dr. Roberto e ele falou de como havia ficado aliviado).

Novamente acordei após 6h no bloco cirúrgico com os tradicionais tapas na cara do Bebeto (rs). Fui levado para o meu quarto e naquele dia me senti o homem mais feliz do mundo.
Tive tanta sorte que não romperam o meu nervo, apenas lesionaram.
Sabia que era apenas uma questão de tempo para voltar a recuperar os movimentos novamente.


Apesar de ter várias cicatrizes novas no meu braço esquerdo, além das que já havia conseguido com o acidente, tudo estava caminhando para um final feliz.
Naquele momento, a maior preocupação era que estivesse realmente livre da infecção.
Os exames demonstravam que meu PCR ainda estava elevado, mas era normal, afinal, estava com uma ferida aberta até o osso e havia acabado de passar por duas cirurgias no espaço de três dias.
Teria que conviver com o acesso ao osso por mais algum tempo, mas diante de tudo que já havia passado, isso era motivo de alegria.
Dor e cicatrizes eram motivo de felicidade para alguém que esteve muito perto de morrer e depois de perder o braço.


Se olhar com atenção, verá a lesão no nervo.

Os curativos eram muito dolorosos, beirando o insuportável. Os médicos achavam que era devido ao nervo está muito próximo ao acesso. Digo a vcs e digo de coração: de todas as dores que senti desde quando sofri o acidente, a que sentia na limpeza daquele novo ferimento era a pior. Tinha um controle fora do comum sobre a dor, tanto que sempre recusei remédio na hora de fazer curativo, mas nesse caso não estava sendo o suficiente.
Na primeira vez que fizeram o curativo tudo escureceu e quase apaguei devido a dor.

Minha infectologista conversou comigo e deixou claro que minha síndrome de super-homem não adiantaria muito contra uma lesão nervosa, pois segundo ela, a dor proveniente do nervo é uma das piores (Quem sofre de hernia tem noção do que estou falando).
Era hora de tomar  mais uma difícil decisão:


Não tive muita escolha e acabei aceitando tomar um remédio fortíssimo para dor, ele era tudo que eu não queria na vida, uma vez que esse tipo de medicamento trás como único benefício o alívio da dor, mas tem um alto poder viciante.
Minha infectologista queria que eu tomasse Dolantina ou Dimorfi, mas falei que não era necessário algo tão forte (já conhecia o histórico e histórias sobre todos os remédios devido ao meu tempo dentro do hospital), no final acabei aceitando tomar Nubain, outro opióide, mas pelo menos era mais fraco do que os outros citados.

Seguiram-se três dias de curativos com a ajuda de morfinicos, mas eu não conseguia aceitar aquela situação. Então novamente escolhi voltar a fazer os curativos sem remédio.

Os dias foram passando e os exames se repetindo.
Aos poucos o meu organismo dava mostras que estava se recuperando de uma vez por todas da infecção.


Em relação ao meu braço, sentia que as coisas estavam melhorando. Era hora de começar a perturbar o Dr. Roberto para fechar um pouco daquela ferida.
Num belo dia comecei a puxar papo sobre o meu braço e de como estava melhorando, ele concordou e sem querer me deu a abertura que eu estava precisando… Rs.

Foi então que falei:
- Dr. Roberto; já que meu PCR está normal e não tem mais nenhum corpo estranho no meu braço, porquê não fecha um pouco esse acesso?


Ele respondeu: - Calma rapaz, ainda é cedo para isso…

Eu: - Não estou falando da gente fechar a ferida, pois sei que meu tecido (carne) tem que cobrir o osso primeiro e fechar de dentro para fora, mas gostaria de fechar um pouco o tamanho desse acesso. Tem realmente necessidade de ele ser desse tamanho?

Ele me olhou e respondeu:

- Vc não tem jeito, né? Vamos fazer o seguinte: na segunda vc desce lá no PS e a gente da uns pontinhos. Mas não pode ser muita coisa para não atrapalhar a limpeza.

Eu: - Na segunda??? Mas hoje ainda é sábado (12/3)! Porquê você não pede material de sutura agora e costura logo isso? Assim eu durmo tranqüilo nesse final de semana.


Dr. Roberto: - Não sei por que venho ver como você está…

Eu, sorrindo: - E ai pode ser?

Ele: - Não. Agora não tem como. Vamos fazer isso no PS, pois temos que anestesiar.

Eu: - Tá brincando? Você não anestesiou quando foi fazer o acesso no meu braço e acha que tem que anestesiar agora só para dar uns pontinhos?


Ele pensou por um segundo e depois falou: - Tá bom… Mas que você é meu paciente mais chato, isso é…