O acidente IV


Então ele pegou o bisturi e fez um buraco de um centímetro de circunferência mais ou menos. Saiu toda a secreção que estava dentro da ferida. Depois para minha surpresa continuou cortando até chegar ao osso. A enfermeira que nos acompanhava não acreditava no que estava vendo. Ficou pálida e comentou que nós dois éramos loucos, nós rimos (eu segurando a dor), fizemos o curativo e depois subi para o meu quarto.

Essa história do corte sem anestesia virou lenda no hospital e até pouco tempo antes de sair de la, sempre alguém vinha perguntar se era verdade que tinha deixado o Dr. Roberto fazer aquilo.

Ao chegar no novo quarto só me restava ficar brincando com as maravilhas tecnológicas do bloco novo do MD.
O quarto era melhor que do muitos hoteis que fiquei. Persianas e camas controladas por controle remoto, vidro a prova de som, etc…
Os amigos que eram do bloco antigo que ainda estavam no hospital foram me visitar assim que souberam que eu estava internado.


Nessa época descobri que minha amizade com o pessoal do hospital servia para outra coisa:
Como eu conhecia todos os seguranças, eles me deixavam sair na hora que quisesse. Ou seja: Eu sempre dava uma saidinha para ir ao shopping que tem ao lado do hospital… Rs.

Lembro uma vez que estava indo “fugir” para dar uma volta e encontrei com a Dra. Claudia (estava grávida e indo raramente ao hospital). Como já estava enjoado de ir ao Diamond, resolvi ir ao shopping do Centro.

Ela ao me ver falou:

- Já vai fugir?

- Vou… (respondi sorrindo).

- Eu não sei de nada. Nem quero saber para onde você vai. Ainda bem que estou indo pro centro.

- Eu também!


Ela começou a rir sem saber o que fazer e disse:

- Não acredito… Não posso te dar carona, pois se alguém ver vai me dar problema.

– Tudo bem! (respondi rindo da situação).

Saí do hospital e lá estava ela parada. Se sentiu mal com a situação e resolveu esperar para dar uma carona.

Os dias foram passando e o meu PCR ia caindo aos poucos graças aos antibióticos. Quando fui internado de novo ele estava em 78 no dia 27/2/2005 já estava em 36. Com isso, já era possível marcar a nova cirurgia.

Eu e o Dr. Roberto como sempre estávamos animados, pois existia uma grande ponte óssea que parecia já estar ligando as duas partes do osso, o que acabava com a necessidade de colocar o incômodo fixador externo após retirar a haste. Logicamente isso era uma possibilidade e poderia ou não acontecer mas, como sempre, preferíamos acreditar que tudo ia dar certo!


2/3/2005, Finalmente havia chegado o grande dia! Lá estávamos eu, Dr. Roberto e vários outros amigos da ortopedia que fizeram questão de participar de minha cirurgia. Brincamos muito enquanto preparavam tudo, o clima era o melhor possível.
Dr. Roberto estava tão confiante que o osso estava consolidado que nem pediu fixador externo.
Era batata! Abrir o braço, retirar a haste, o parafuso que a fixava e depois usar uma tipóia, talvez um gesso por um tempo e voltar à vida normal sem maiores problemas.

Sabíamos que havia uma pequena chance do osso não estar consolidado e precisar colocar o fixador externo. Estava preparado para isso também.

Depois de tudo que já havia passado, sabia que as coisas podiam não sair como a gente esperava.
Pensava da seguinte forma: Se não precisar colocar o fixador maravilha, mas se for necessário tudo bem!


Aplicaram a anestesia e aos poucos comecei a perder os sentidos até apagar.
Oito horas após iniciar a cirurgia eu acordei. Estava grogue devido à anestesia.

Aos poucos fui voltando ao normal. Quando olhei para o braço percebi que estava com o fixador externo. As coisas não saíram como o esperado.
Quando abriram meu braço a ponte óssea só estava presa de um lado… A infecção não havia permitido que o osso consolidasse.

Como se não bastasse, o parafuso que prendia a haste também estava solto, por isso sentia tanta dor durante os meses que fiquei fora do hospital.  Além disso, tiveram que fazer um novo acesso (buraco) até meu osso, pois teria que ficar limpando o local por um tempo para certificar que estava livre da bactéria de vez. O acesso foi feito no mesmo local do anterior.

Apesar do mar de notícias ruins eu já havia me preparado para tudo isso, pois sabia que era uma possibilidade, portanto, isso era apenas mais um obstáculo. Estava preparado para tudo isso, menos para o que eu descobriria a seguir.


 Tentei mexer minha mão esquerda e percebi que ela não tinha movimentos.
 Chamei o Dr. Pedro que estava por perto e ele não sabia explicar o porquê. Olhei nos olhos dele… Tudo estava claro… Haviam cometido um erro e acidentalmente lesionaram novamente o meu nervo radial. O mesmo que eu havia levado OITO meses para recuperar os movimentos.

Todo trabalho, toda luta, toda espera… Tudo perdido por causa de um erro durante a cirurgia.
Pedi para me levarem ao meu quarto.
Quando abriu a porta do elevador no meu andar meus antigos enfermeiros do quinto andar e os novos que já haviam se tornado meus amigos estavam lá para me dizer oi. Todos viram o fixador no braço e ficaram quietos.

Não conseguindo mais controlar as lágrimas que estava segurando, chorei pela primeira vez desde que sofri o acidente.
Só tive forças para dizer: Perdi os movimentos da mão de novo. Mais duas pessoas choraram comigo naquele momento.
Pela primeira vez desde o dia que sofri o acidente eu duvidava de Deus e perdia minha alegria, parecia que jamais seria capaz de sorrir novamente. Finalmente havia sido derrotado… Só me restou chorar…
Levaram-me para o meu quarto e fiquei por algumas horas tentando assimilar o que havia acontecido.



Foi então que caí na real:
Quando fui internado cheguei com o discurso de que sempre havia aceitado as coisas boas que a vida me deu e que estava aceitando com a mesma felicidade as provações. Então por que seria diferente agora? Quem era eu para achar que não merecia sofrer?
Não podia ser derrotado por uma lesão no nervo.
Se já havia começado a vida de novo após o acidente e me recuperado quase que plenamente, era hora de recomeçar novamente.
Respirei fundo, agradeci a Deus por meu nervo ter sido lesionado novamente e eu ter mais essa lição de humildade.
Lembrei o que já estava esquecendo tão pouco tempo após ter sofrido tanto. Devemos sempre nos superar e agradecer tudo que a vida nos da. Não só os momentos bons, mas tb os ruins, pois eles são muito importantes para o nosso crescimento como ser humano.
Naquele instante voltei a sorrir!

Dr. Roberto me visitou no final do dia. Estava arrasado. Falou que na hora que estava fazendo o acesso percebeu que meu braço sofreu uma contração involuntária. Ele realmente achou que havia acontecido algo. Foi então que falei:

- Ora, Dr. Roberto… não fique assim. Se isso aconteceu era porque tinha que acontecer e ponto. Já passamos por muita coisa e o importante é que estou vivo.


Ele me olhou ainda triste e falou:
- Mas não sei qual foi o grau da lesão. Você já estava bom e agora talvez tenha rompido seu nervo, se isso ocorreu talvez você não recupere mais os movimentos da mão.
Sorri e falei:
- Se isso aconteceu, nada muda, só terei que aprende a viver com as novas limitações (procurei sorrir).

Dr. Roberto: - Desculpe-me.

Eu: - Pelo que?

Dr. Roberto apontando para minha mão: - Por isso…

Eu: - Tenho certeza que não aconteceu nada mais sério, mas mesmo se tiver acontecido eu vou me recuperar. Ou já se esqueceu qual o meu apelido? (Na época brincava com meus médicos falando que era o Wolverine devido a minha boa recuperação e acabou pegando).

Ele sorriu e falou: - Só você…

Após alguns segundos em silencio ele voltou a ficar com uma expressão carregada no rosto e falou: 
- Estou pensando em te operar de novo no dia cinco, precisamos ver o quanto antes qual foi a extensão da lesão no nervo para corrigir.

Pensei por um segundo e falei: - Tudo bem, mas com uma condição…

- Desde que vc termine de cortar essa cicatriz durante a cirurgia. Já que fez o acesso ai, aproveita e aumenta o buraco retirando essa coisa feia.

Ele sorriu e disse que tudo bem.


No dia 3/3/2005 a minha instrumentadora foi visitar-me junto com o Bebeto (Anestesista). Já éramos amigos, afinal, foram onze cirurgias e mesmo não trabalhando mais no MD, ela sempre ia trabalhar com o Dr. Roberto em minhas cirurgias, devido à amizade.

No dia 4/3/2005, fiquei descansando e a partir de meia noite estava em jejum para cirurgia do dia seguinte.
Vocês já perceberam como sempre temos mais sede justamente quando não podemos beber nada? Pois é… acordei de madrugada e depois novamente na manhã do dia 5 com uma sede danada… Rs.