O acidente III


No dia 20/8/2004, chamei a Dra. Claudia e o Dr. Roberto e falei:

- Sei que não temos como ter certeza se a haste está contaminada, mas por outro lado tenho tido evolução no PCR. Queria fazer o seguinte se ambos estiverem de acordo: Paro de tomar o antibiótico e deixamos a ferida fechar. Se meu PCR não aumentar é pq não tem mais infecção não é isso?

Dra. Claudia respondeu que sim.

Falei:

- Assim a gente acaba logo com isso, pois se estiver infectado só estamos perdendo tempo, caso não esteja ótimo!

Meu PCR estava 15 naquela época (normal até 6). Não estava normal, mas como estava com uma ferida aberta aquilo era natural. Ambos concordaram e aquele foi o último dia que tomei antibiótico. A partir dali era deixar a ferida fechar e ver o que acontecia.

Os dias foram passando e a ferida foi fechando de forma acelerada. Era questão de tempo até eu receber alta. Fizemos um novo PCR no dia 29 e havia permanecido em 15, até minha infectologista começava a dar o braço a torcer, ao que tudo indicava estava realmente livre da infecção. Assim que a ferida fechasse, poderia voltar para o Rio e só ir a cada quinze dias em BH para fazer revisões.


Comemoramos no dia 29/8/2004 o aniversário da Fabiane, ela é enfermeira do MD e acabamos nos tornando grandes amigos. Preparei uma festinha surpresa para ela no meu quarto. Todos já conversávamos sobre a saudade que sentiríamos uns dos outros após eu ir embora. Era só uma questão de tempo… A menos é claro que aparecesse alguma surpresa desagradável.

No dia 5/9/2004, Lu e minha mãe comprarem 50 caixas de bombom e distribuímos entre todos aqueles que tiveram contato direto comigo naquele período. Médicos, enfermeiros, pessoal de limpeza e copa dos dois plantões e de todos os horários. Todas aquelas pessoas maravilhosas que várias vezes entraram no meu quarto para saber se estava bem, ou simplesmente para dar um oi. Pessoas que demonstravam claramente que estavam felizes por me ver saindo do hospital, mas não por estar longe delas.

No dia 6/9/2004 recebia a visita do meu pai e irmão. Foi a última visita que recebi antes de sair do hospital. No dia seguinte estaria recebendo alta e o clima era de felicidade.

Havia se passado 36 dias dentro do hospital nessa última internação. Lutei o bom combate e venci. Era época de sair do hospital e finalmente voltar a seguir o rio da minha vida… Época de caminhar novamente.


Era o fim de uma fase longa e turbulenta da minha vida.
O início de uma nova caminhada.
O mundo me esperava e eu estava sedento para ver o mundo colorido e não somente o verde e o branco do Mater Dei.


Fiquei em BH até meados de setembro e depois voltei para o Rio. Meu osso estava quebrado, mas a haste dava a sustentação e a cada 15 dias eu ia a BH para fazer novos exames.
A vida ia continuando e as coisas pareciam que estavam normais dentro do possível. Os raios-X que eu fazia sempre mostravam que estava criando um calo ósseo.
Fiz um exame para ver como estava o estado do meu nervo em novembro. É um exame que enfiam um monte de agulhas no braço para ver se tem sinal do nervo. O resultado? A médica que fez o exame falou que eu jamais ia recuperar os movimentos. Logicamente como sempre sorri e embora não tenha dito, pensei: Ela não me conhece… Rs.

Outubro e novembro foram assim, fui voltando aos poucos ao trabalho. Trabalhando meio expediente ou o tempo que achasse necessário. Aos poucos a vida ia voltando ao normal.

No dia que voltei para academia foi uma festa danada. Todos fizeram as piadinhas de sempre e meu grande amigo Yasser chorou como uma criança ao me ver.

Na época comecei a pensar que minha história poderia servir de lição para outras pessoas imprudentes como eu e resolvi fazer um blog para contar minha história.



Em Dezembro tive a grata surpresa de começar a recuperar os movimentos do punho esquerdo. Os dedos ainda estavam longe de voltar a funcionar, mas o punho voltou a fazer o movimento para cima. Novamente os médicos não souberam explicar como recuperei o movimento. O único que sempre falou que isso era bobagem e que tinha certeza que eu ia me recuperar era o também otimista Dr. Roberto.

Os posts iam se multiplicando e os amigos também. Nessa época conheci pessoas muito especiais que me deram muito carinho e apoio.

Na academia as coisas não iam muito bem. Malhava no máximo dois dias por semana, pois as dores após os exercícios eram insuportáveis. Como meu médico dizia que era normal devido à fratura não estar plenamente consolidada, eu levava na boa.

Meu PCR passou de 15 ao sair do hospital para 13, depois voltou para 15 e posteriormente para 17. Apesar disso, minha médica achava normal, pois o osso estava consolidando e essas mudanças podiam ser devido a esse processo.

No início de Fevereiro os movimentos da mão esquerda já haviam voltado totalmente, ou melhor… Quase… Pois o dedão ainda não tinha recuperado o movimento, mas ele sempre é o último nesse tipo de lesão.


Veio Fevereiro, e com ele algo estranho começou a acontecer…
Quando a ferida daquele acesso ao osso fechou, meu braço ficou com um buraco, pois a carne se prendeu ao osso e ficou uma cicatriz funda e feia (mais até do que as outras). De repente começou a crescer um caroço no local dessa cicatriz e no dia 12/2/2005 fui a BH e coletaram o material purulento que estava dentro dessa bolsa para fazer exames e identificar qual agente estava agindo. Nem minha infectologista acreditava que pudesse ser a mesma infecção do passado, pois já estava a cinco meses levando uma vida normal.
Saiu o resultado e ela me ligou.

Era a mesma bactéria… Minha haste estava infectada, sempre esteve… A bactéria havia ficado quieta por cinco meses esperando o momento certo de voltar a agir. Como não havia sinais físicos da infecção além do caroço de secreção que se formou no braço, minha médica falou que eu podia me preparar com calma para me internar na outra semana.

Finalmente entendi o pq das dores terríveis que eu sentia ao malhar e o fato de não conseguir ganhar peso mesmo cuidando da alimentação e malhando.

No dia 22/2/2005 dei entrada novamente no MD.
O quinto andar havia sido desfeito, pois fecharam para reformar e mandaram algumas pessoas embora, as que continuaram foram enviadas para diversos andares dos dois blocos do hospital.
Fui internado no 9° andar do bloco novo. Era o início de uma nova batalha, mas eu estava preparado!

Desci para ver o Dr. Roberto e ele deu uma olhada na bolha. Num acesso de loucura habitual ele me perguntou:

– Você agüenta se eu cortar isso?

Olhei para o braço, para ele e respondi sem titubear:

– Claro!