O acidente II


Voltando a solução que o Dr. Roberto deu, para mim era o ideal! Estava muito ruim para dormir com aquele fixador, pois incomodava muito quando movimentava o braço. A tal da haste era um grande sonho! Afinal, a promessa era que com ela meu osso ia calcificar mais depressa, pois iam retirar osso da bacia para colocar em volta da fratura. Meu PCR (indicador de infecção, cujo normal é 6) estava em 134 quando cheguei ao MD e como havia reduzido para 9 a base de antibiótico, eles acharam que era o momento.

Tudo pronto, mais ou menos um mês após a cirurgia para colocar o fixador, estava eu novamente no bloco cirúrgico para mais uma cirurgia. Tudo correu como esperado e apesar de terem conseguido tirar pouco osso para o enxerto devido ao meu osso ser muito duro, parecia que as coisas estavam indo cada dia melhor!

Após a cirurgia, fui para o meu quarto descansar, a dor era muito forte, pois eles haviam acabado de causar uma fratura na bacia para melhorar o do braço, mas mesmo assim estava muito feliz! Fiquei internado por mais uma semana após a cirurgia e depois fui liberado para voltar para o Rio. Parecia o fim da minha saga… Estava voltando para minha terra, meus amigos, família, lar… Só precisaria esperar alguns meses para o osso calcificar e poderia ficar com a haste por dentro do osso pelo resto da vida.


Cheguei ao Rio após meses ausente (20KG mais fraco).
Estava muito feliz e parecia que estava tudo ok. Fui à empresa visitar os amigos e agradecer aos sócios que em todos os momentos me deram apoio e sempre colocaram minha saúde acima de tudo. Estava tudo perfeito, mas infelizmente nem sempre a realidade é o que esperamos.
Uma semana após eu voltar para o Rio, estava tomando banho e percebi que estava saindo uma secreção do local onde fizeram o enxerto ósseo.
Voltei correndo para BH e fiz vários exames.
O que estava acontecendo comigo? Estava tomando antibiótico e não era possível ser uma nova infecção. Saíram os resultados do meu exame de sangue.

Infelizmente era a mesma bactéria que tinha me contaminado no acidente. Ela havia se tornado resistente aos antibióticos e minha única opção era o Ivans. As chances de a haste que haviam colocado no meu braço ter sido contaminada era de mais de 95%.

Uma explicação rápida sobre bactérias: Elas são tão inteligentes, que são capazes se prender a esse corpo estranho (haste por dentro do osso) e criar uma camada protetora cujo antibiótico é incapaz de penetrar.

Com esse quadro, só restava fazer uma nova cirurgia para lavar o local por onde estava saindo secreção e esperar para ver se a haste havia sido contaminada.
Uma semana após sair do MD, lá estava eu de volta.
Liguei para o Rio e falei que ia ter que operar de novo, mas não queria que ninguém fosse para BH, pois não era justo pararem a vida em função da minha recuperação.
Fui internado no prédio novo, o sonho de qualquer paciente. Tudo moderno, quarto climatizado, vidro a prova de som, persianas moviam por controle remoto… Mais parecia um hotel cinco estrelas! Só que já estava acostumado com o pessoal do quinto andar do bloco antigo e tomei uma atitude que ninguém do oitavo andar do bloco novo acreditou. Pedi para ser transferido para o quinto andar do bloco antigo. Perguntaram se havia ocorrido algum problema, pois era uma situação inédita, todos pediam o contrário. Falei que não. O atendimento estava ótimo, mas queria ficar perto dos meus amigos.


Tudo marcado fui novamente para o bloco cirúrgico. Já conhecia a todos no hospital e o clima era sempre de descontração. Não parecia que estava no bloco cirúrgico.
Médicos, enfermeiros, anestesista e instrumentadora, sempre iam me visitar após as cirurgias e o clima sempre era muito agradável.

A cirurgia durou em torno de 7h. Tiveram que abrir o braço, lavar muito o local e deixar um acesso (buraco) até o osso para poderem ir lavando e tentar vir se com o auxilio de antibióticos, seriam capazes de livrá-lo da infecção sem ter que retirar a haste e colocar um novo fixador.

A partir daquele momento começaram as brigas entre o meu ortopedista e minha infectologista. O Dr. Roberto achava que a haste não estava contaminada, que haviam lavado bem e que deixando a ferida aberta e tomando antibiótico tudo ficaria normal. Já a Dra. Claudia achava que o melhor era retirar a haste e colocar fixador, pois se a haste estivesse contaminada de nada adiantaria tomar antibiótico.

Todos os dias eram feitos curativos e optei por não tomar o Nubaim (remédio opióide muito efetivo contra a dor, mas com grande risco de dependencia quimica), pois as enfermeiras sempre vinham contar que paciente X ou Y estavam viciados nesse remédio.

Pelo meu comportamento eu até desfrutava de ótimo conceito com os médicos. Era o único paciente que recusava quaisquer remédios na hora do curativo e no restante do dia. A verdade é que sempre achei que qualquer remédio ajuda de um lado e atrapalha muito nos outros. Como queria sair logo do hospital, achei que o melhor caminho era evitar ao máximo esses medicamentos que enfraquecem nossas defesas, ainda que tivesse que suportar muita dor.


Os dias passavam lentamente, andava pelo hospital inteiro, conhecia todos os médicos, enfermeiros, pessoal da copa, limpeza, recepção, segurança, etc. Era muito bom o ambiente e diversas vezes esquecia que estava num hospital.

Sempre procurei tratar todos os colaboradores do MD com o mesmo carinho, indiferente de ser o diretor do hospital (de vez em quando ia ao meu quarto bater papo) ou pessoal que carinhosa e cuidadosamente cuidava da limpeza do meu quarto. Algo alias que era muito importante para alguém com uma ferida aberta até o osso.

O tempo foi passando e os médicos ficavam na eterna discussão… O que era melhor fazer? Dr. Roberto dizia que era só ficar lavando, tomando antibiótico e deixando a ferida aberta para dar tempo do osso calcificar, já Dra. Claudia (infectologista) falava que o osso não ia calcificar se estivesse infectado. Eu ficava no meio.


Após essa cirurgia o meu PCR foi para 78 (normal é seis), mas passada a primeira semana ele começava a mostrar queda. Ainda assim podia não ser nada, pois estava tomando antibiótico.

Já fazia 17 dias que tinha voltado para o hospital e meu braço continuava na mesma. Fizemos um raio-x nessa época e mostrou que algo estava acontecendo. Ao que tudo indicava, parecia que estava calcificando. Isso era ótimo, pois mesmo se estivesse infectado, o osso estava conseguindo se recuperar.
Minha infectologista falou que começava a ter dúvidas por causa das imagens do raio-x e os exames de sangue que vinham melhorando. Ela estava achando que eu podia está entre os 5% que conseguem sair de um caso desses sem infectar a haste.
Tenho uma ótima cicatrização e justamente por isso meu organismo estava tentando fechar a ferida antes do esperado. A forma encontrada foi forçar ao máximo com a pinça sempre quando a gente ia fazer curativo. Dessa forma, estávamos sempre abrindo a ferida.

cada dia me sentia melhor e mais feliz. Já me sentia parte daquele hospital e adorava poder ver as pessoas saírem de lá após dias, semanas ou meses internadas. Quando comentavam que fulano do quarto X estava em depressão ou triste, eu dava uma de intrujão e ia visitar as pessoas. Tentava mostrar alguma graça em nossa situação, e sempre que possível chamava para passear pelo hospital. No final das contas, posso dizer com segurança que mesmo de uma experiência dessas a gente tira algo maravilhoso.


Os dias iam se arrastando no hospital e mesmo com todo carinho e amizade que recebia de todos, era complicado viver naquela incerteza. A haste estava ou não infectada? Por quanto tempo meu organismo ia agüentar aquele monte de antibiótico?

Meu osso mostrara uma pequena melhora no ultimo raio-x e o PCR havia baixado, mas até que ponto isso comprovava alguma coisa? Segundo minha infectologista, tudo podia não passar de uma ilusão. Tinha risco de após parar de tomar o remédio à infecção voltar. Ela dizia que ia me segurar no antibiótico até o osso calcificar, mas isso levaria quanto tempo? Meu organismo ia resistir a tanta droga?

Era hora de tomar uma decisão! Hora de chamar meus médicos e dar minha opinião sobre minha situação. Hora de decidir o meu futuro.